O dia em que a fé
acabou
“Quando o Filho do Homem voltar, porventura encontrará fé na terra?” (Lc
18.8)
PR. DANIEL ROCHA
Pastor da Igreja Metodista em Itaberaba, e
psicólogo ( dadaro@uol.com.br Este endereço de e-mail foi
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Ano de 2025. O culto das 18 horas vai começar numa
mega-igreja dentre muitas que se espalham pela cidade. A grandiosidade e beleza
do templo confundem-se com os modernos shoppings. Dentro há grandes lojas,
academia para os fiéis, salas de jogos e restaurante. O culto pode ser
assistido de qualquer lugar da catedral, até mesmo da sala de jogos virtuais
freqüentada pelos adolescentes. Finos telões de plasma espalham-se por salões
climatizados e poltronas confortáveis.
As pequenas congregações quase desapareceram, pois estas,
sem recursos, não oferecem comodidade aos novos crentes, nem
estacionamento ou berçários com monitoras treinadas, nem cartões de fidelidade
(na verdade, um chip implantado no dorso da mão) com grandes descontos nas
lojas que levam a grife da denominação.
Noto que quase ninguém se conhece, e isso parece não ter
muita importância, pois, afinal, é um lugar de grande concentração, e os
evangélicos agora são maioria da população. Também percebo que não trazem a
Bíblia, pois segundo um dos freqüentadores, depois que os Anjopóstolos (é o
título atual) escreveram e-books explicando os principais tópicos da Bíblia, de
forma que não desse mais margens à dúvidas, ela se tornou um tanto obsoleta,
embora haja exemplares expostos no Museu da igreja para quem deseja vê-las. O
Grande Líder da denominação falou que no passado os batistas pensavam de uma
forma, os metodistas de outra e os assembleianos de outra, e isso só gerava
confusão, pois cada um tinha a sua maneira de ver. E como Deus não é Deus de
confusão, a denominação adotou uma única e verdadeira forma de interpretação.
Outro motivo para deixarem a Bíblia de lado é que o povo
já há muito tempo vinha clamando por novas visões – e não mais as antigas – que
“já não têm mais sentido num mundo tão avançado”, disseram.
Vi algumas inovações: a ceia é servida em um kit embalado
com pão e vinho para ser tomado a qualquer momento pelo fiel. Explicaram-me que
não era mais possível partilhar da forma da Igreja primitiva, embora,
estranhamente, ainda a chamem de “Comunhão”, o que achei engraçado. Na hora das
ofertas ninguém sai de seu lugar, mas aperta algumas senhas num pequeno palmtop
que todos recebem ao entrar. Senti saudades de quando era criança e íamos todos
cantando ao altar levar algumas moedas ao gazofilácio.
O líder-mor começará a falar. Ele é muito carismático e
agradável. Fala de forma mansa, mas incisiva. Sua fama cresceu muito desde que
fez inúmeras curas e milagres “via internet” diante dos olhos de todo o mundo
[1]. Ele é confidente de vários chefes de Estado, e viaja constantemente a
pedido deles.
Fiquei curioso se nunca questionaram sua autoridade.
Disseram-me: ora, se um ministério cresce tanto e alcança escala mundial, só
pode ser de Deus – e só os invejosos é que são contra, e ademais, os milagres
que ele faz são inquestionáveis, conforme o mundo inteiro comprovou [2].
Perguntei se havia muitas conversões e o meu interlocutor
olhou-me espantado. Não chamamos mais de conversão – disse-me ele – agora
falamos em adesão! Conversão é muito impositivo para esta época e invade a
privacidade: as pessoas a-d-e-r-e-m ao nosso movimento, para alcançarem os
desejos de seu coração, e isso basta.
Começo a observar os fiéis: parecem todos muito
uniformes, enquadrados, ouvem sem questionar [3], não conferem nada na Palavra,
que lhes é obscura. Não vejo alegria genuína, mas antes, um olhar vago e
distante. Fazem marchas e passeatas com palavras de guerra espiritual nos
lábios. Exaltam seus líderes, quase numa atitude de adoração. Noto que alguns
jovens mais afoitos têm o nome deles gravado na testa para demonstrar
fidelidade [4].
De um grupo que conversava só ouvi superficialidades e um
linguajar desprovido de reflexão, cada um querendo contar que novo artigo havia
pedido a Deus de presente. Ficou patente para mim que não há mais sentido
explicar ali que há um céu que aguardamos ou que somos peregrinos na terra [5],
pois a igreja promete o céu inteiro agora. Ainda caçoaram: “Ora, aqui ninguém
fala Maranata, Vem Jesus!” [6].
Indaguei sobre a Escola Bíblica Dominical, mas poucos
sabiam do que se tratava. E quem sabia, disfarçava um sorriso, dizendo que já
não era mais necessária, pois tudo o que precisavam saber, o Espírito Santo
revelava através da cobertura de seus “conselheiros espirituais”.
Todos estavam eufóricos, pois foi eleito o nosso primeiro
presidente evangélico. Ele costuma tomar o avião presidencial e do alto derrama
óleo para ungir a nação e profetizar prosperidade. O Congresso também é
dominado pelos evangelicals, pois ficou fácil conquistar votos nas igrejas
desde que o catolicismo deixou de ser maioria. Nunca houve tanto nepotismo e
corrupção, mas os deputados insistem que tudo não passa de mais uma perseguição
satânica com o propósito de destruir a Igreja.
Reconheci entre os “Anjopóstolos” nomes de homens e
mulheres que foram presos no passado, mas agora eram vistos como “mártires”,
embora não tivessem morrido, e nem exatamente sofrido por causa da fé.
Inclusive, vários deles ganharam as suas redes de TV, por terem apoiado o
presidente, que décadas atrás ainda era um garotinho.
As pessoas passam umas pelas outras; não se olham nos
olhos, não se abraçam, não há o ósculo tão característico da igreja cristã, são
multidões, e percebe-se que não há intimidade, comunhão ou interesse pelo
outro. Deus existe só para suprir seus caprichos infantis, a Graça foi
enterrada e a “meritocracia” entrou em seu lugar [7]. Compreendi, então, porque
Jesus disse que “por se multiplicar a iniqüidade, o amor se esfriará de quase
todos” [8].
Comecei a me indignar e revoltar [9] contra a cegueira do
povo e contra o espírito do anticristo [10] ali dominante, quando de súbito
acordei suando e gritando “o que fizeram com a Igreja?... o que fizeram com a
Igreja?”.
Felizmente, tudo não passou de um pesadelo, sem base
real. Como ainda era madrugada, liguei a TV para assistir a uma pregação
evangélica, e me acalmar.
Referências:
[1] 1 Ts
2.9
[2] 1Ts
2.11
[3] Tt
2.6
[4] Ap
13.16
[5] Hb
11.13
[6] 1Co
16.22
[7] Jd 16
[8] Mt
24.12
[9] At
17.16
[10] 1Jo
2.18
Será que esta história é apenas uma ficção futurista? Precisamos cuidar de nossa fé todos os dias.
Deus abençoe você.
Com carinho,
Pr. João